Terça-feira, Julho 18, 2006

Gravidade

Ao que me resta na música, senão ouvi-la?
Ao que me resta na arte, a inútil arte senão apenas vivê-la?
Troco, toco, tento, texto... assim meu texto
E nessa toada, novo tom
Dons, sentidos.

Se inverto a mão
Como fica meu mundo?
Minha mão destra
Assim desliza em busca do novo.
Novos contextos, novos controles sobre mim mesmo.
Sobre mim mesmo.

Um tema, um tema.
Tom fora de tom.
Assim sou!
Tom, tom.
Acorde, acordo.
Dissonante?
Susto, sustentação:
Você também ficaria assim se soubesse...

Ao que me vem
As 2 horas, senão da manhã.
Mas era tarde e eu sabia que já era tarde.

Se o tempo passa.
E se não há de passar.
Passa, pois penso.
E se não há de pensar?

II

Cadê o tesão?
Oh! Maldito bendito tesão...
Da vida. De nossas vidas.
Nesse cinza mono-tom.
Que vejo as pessoas pintando:
Fachadas de prédios! Vida de fachada!!!!
Cinza, cinza, cinza.

Essa é a única cor?
Que vejo em meu irrevogável daltonismo?
A cor deste mundo fake multicolorido.
Já reparou que em nosso tempo tudo é imitação?

Vejo toda a cor
O fim da novela.
E tudo acaba bem quando começa a vida real
Pergunto: será que é pra se matar?
E cada instante ir buscar o novo.

Combustão: eu, por mim poria fogo neste mundo.
Um pouco de cor, pelo amor de Deus!
Poria fogo neste mundo
E em todos os outros que fossem inventados à moda deste.

III

E você já nem sabe do vazio que te consome, que nos consome.
Da coisa comida, mascada, faltante...
Daquilo que não se sabe explicar?
Você saberia explicar?

Passar então mais uma noite em claro?
Pedir mais um, dois, dez drinks?
Eu posso pagar uma puta então,
Se é para gozar, eu posso pagar.
Faça me o favor... pois assim já não dá mais...
Terceirizamos serviços, afeição, afetos...
Preencha como puder este vazio
Que já nem sentes, que já nem sabes...
Preencha e este vazio voltara maior... maior...

Qual de nós que não agoniza
Na batida diária, repetida, cotidiana?
Tão prevista e controlada.
Afinal, qual de nós não é senão um escravo deste nada...

Que inútil maçada os ponderados...
Mas calma meu amigo.
Não está tão ruim assim.
Não seja radical, não seja profundo: quem é que vai te entender?
Afinal, em que mundo você vive?
Pra que vive? Como? Viver?
Viver hoje é senão, sobre-viver.

IV

Estou despregando do chão, do mundo.
De passagem, sempre de passagem.
Não faço falta!
Não pertenço a lugar algum e todos os lugares estão em mim.
Mas de quem são os lugares?
Quem é o dono e o que é a propriedade?
Nenhuma posse afinal.
Declaro já o nomadismo como nova (velha!?) forma de vida.
Nenhum território,
Será possível? Será que eu agüento o desapego que prego?

Suportar chegar e partir no mesmo dia.
Mais uma cidade que fica pra trás?
Nenhum corpo para carregar...
Todos os cadáveres têm que ficar onde morreram,
Carregá-los é inútil.

E como dói arrancar os mortos de si?
Se soubéssemos que de nós ele apenas riem.
Presos.
Como dói arrancar as amarras que nossa cabeça cria
E nosso corpo aceita como tal.
Sim, ser! Apenas ser.
Afinal há apenas aqui; há apenas agora.

1 comentários:

Mariana disse...

Sei que esse texto é um pouco antigo...mas estou eu aqui olhando, tentando conhecer um pouco mais de você e achei, simplismente, perfeito ler o que você escreve...mas essa em particular, eu faço questão que a leia pra mim!
Muito linda, a princípio, mas quero ouvi-la de você..para sentir como foi feita e sentida; e só assim vou poder julgar se é, realmente, linda.