Quarta-feira, Maio 27, 2009

O turismo hoje

O turismo hoje
Tema da palestra de 25/05/09 na Unidade Francisco Matarazzo SENAC SP

Prof. Helio Hintze


Agradeço ao convite de meus amigos Prof. Wanderley Damaceno e Alexandre Martinez do SENAC Francisco Matarazzo. A afetividade desses amigos sempre me trará à esta casa, que é parte marcante da minha história de vida.
Quanto ao tema proposto, considero-o é extremamente interessante. Inicialmente causou-me estranheza o convite para palestrar sobre um tema com este título: O turismo hoje. Mas, depois gostei e eles sabem disso. Não sei quanto às expectativas de vocês, mas não desfilarei aqui estatísticas, possibilidades de atuação no mercado de trabalho, nem mesmo certezas: meu objetivo aqui é instalar dúvidas. É a partir da dúvida que o cérebro funciona. Pretendo então, subverter a ordem das coisas.
No título proposto: “o turismo hoje”, para muitas pessoas a ênfase esteja na palavra “turismo”. Mas, não vejo a coisa assim e vou procurar trabalhar inicialmente o termo “hoje”. Acredito que para entender o turismo, ou qualquer outro fenômeno da atualidade é preciso – ao menos tentar – compreender o “hoje”. E isso não é missão fácil. Pretendo então, inicialmente fazer uma leitura geral da contemporaneidade.
O turismo ocupa um papel importante no panorama do conturbado tempo atual e isso nos leva a perceber que ele é uma metáfora precisa para algumas das características da atualidade. A isso vou me dedicar: mostrar um pouco como é que o turismo constitui um ótimo exemplo para olharmos para nosso tempo.
Neste sentido, é importante atentar para o fato que compreender o turismo, apenas a partir do próprio fenômeno turístico é – de certa forma – uma compreensão reducionista. É preciso contextualizá-lo no “hoje” e nas implicações que isso traz. Todavia, isso ainda não é suficiente. É necessário, contextualizando o turismo no “hoje”, procurar explicar o que e como ele poderá ser amanhã: e neste movimento, gostaria então de tecer algumas palavras sobre o papel do Guia de Turismo. Essa é minha tarefa aqui, hoje.
Então para começar podemos perguntar sobre o turismo: o que é turismo? Neste momento não estou pensando em nenhuma definição técnica do tipo da OMT (Organização Mundial do Turismo) que diz que são todas as atividades das pessoas em deslocamento fora de seu domicílio, etc. O que é o turismo? É o sonho das pessoas? São os desejos de se conhecer lugares, pessoas, culturas diferentes? É o desejo de trocar conhecimentos? É a vontade de conhecer o novo? De vivenciar emoções fora do cotidiano? De renovar as energias gastas num ano estressante? De aliviar a cabeça martelada por um dia-a-dia nem sempre enriquecedor devido à rotina imposta? É uma possibilidade de destaque no grupo ao qual pertenço?
Estas perguntas nada têm de inocentes. Num primeiro movimento tais perguntas nos levam mediante uma reflexão um pouco mais aprofundada – coisa difícil nestes dias – a nos perguntarmos sobre nosso cotidiano.
Nosso dia-a-dia é densamente marcado pelo que eu vou chamar de “hoje” como havia dito no início. E, por conseguinte, se o cotidiano é marcado pelo hoje, o turismo – que é seu par em contraposição – também o é. Cotidiano e turismo são pares em contradição pois são eventos que se entrelaçam e se interdependem: turismo, férias, trabalho, remuneração etc. São enfim, as duas faces de uma mesma moeda em aparente contraposição, mas na verdade formam um continuum.
Vivemos no tempo presente, na contemporaneidade. Esta é marcada por um fenômeno histórico que os intelectuais têm chamado de pós-modernidade. Estamos – quer queríamos ou não, quer saibamos ou não – na pós-modernidade e vivemos sob suas características e condições. E esta é marcada por uma série de características, a meu ver muito bem (in)definidas. Vivemos num tempo extremamente veloz. Esse primeiro ponto é fundamental. Podemos perceber isso no dia-a-dia. Nossa vida diária é marcada por uma correria sem fim. Isso exige muita energia de nós. Com o desenvolvimento da tecnologia, as promessas de maior tempo livre para nosso lazer não se concretizaram: aumentou sim a exigência de nossos trabalhos. Os adventos do celular e da internet sem fio neste sentido são muito simbólicos. Tanto um como o outro permitiram a mobilidade total. Se antes, para uma ordem ser dada, o autor da ordem necessitava um ponto fixo – um orelhão que fosse – hoje em dia a ordem pode ser dada em movimento e recebida em igual movimento. Isso tem profundo significado sociológico. Isso reinventa de certa forma as relações de poder. A velocidade com que a informação transita é – sem sombra de dúvidas – fator de concentração de poder nas mãos daqueles que podem utilizar-se de tal velocidade. Aos que permanecem virtualmente parados, resta obedecer.
O deslocamento físico igualmente é uma característica que acelerou o mundo pós-moderno. O planeta para algumas pessoas, encolheu. O automóvel, o trem de alta velocidade, o avião, entre outros meios de transporte ajudaram a ‘encurtar’ as distâncias. O turismo utiliza-se deste expediente: os turistas compram pacotes que incluem longos trechos aéreos, terrestres e em água e cruzam o planeta em busca de seus sonhos. Há que se lembrar que estas facilidades não estão ao alcance de todos e isso é uma forma de segregação de poder...
Continuando com esta veloz análise de nosso tempo, outra característica é do “hoje” é a fragmentação. Podemos perceber que nosso cotidiano é fragmentado em diversos momentos e nós somos igualmente fragmentados em diversos papéis: somos pais, mães, filhos, alunos e professores. Somos empregados e patrões. Somos clientes de diversos empreendimentos. Somos reclamantes em intermináveis filas... Somos consumidores. Cada um desses papéis – entre muitos outros é claro – são personificados por cada um de nós. Somos um e somos muitos. Outro momento que podemos perceber a tal fragmentação é na escola. O ensino formal é constituído normalmente de cursos que são por sua vez formados por disciplinas. Se considerarmos o exemplo do ensino formal oficial chamado “Ensino Médio” das escolas em geral, perceberemos que em intervalos aproximados de 50 minutos, os temas discutidos podem ser trocados: sai o professor de História (e eu estava no auge da Idade Média, sendo perseguido pela inquisição) e entra o professor de Química e me salga a vida apontando a composição do NaCl. Assuntos absolutamente desconexos fundem-se em minha cabeça e eu não consigo se quer fazer uma síntese. Não há muita possibilidade de sinapse por parte dos neurônios com tamanha fragmentação.
Velocidade e fragmentação produzem superficialidade. E esta é uma outra característica deste tempo... um tempo no qual tornou-se difícil aprofundar as coisas. Aprofundar estudos, relações amorosas, carreiras profissionais, etc. Então continuemos com nossa análise do “hoje”, mesmo que ela seja veloz, fragmentada e superficial.
Perceber estas características começam a nos ajudar a compreender outras características de nosso tempo: a descartabilidade das coisas, por exemplo. O “hoje” privilegia o descartável, pois é necessário que possamos nos livrar o mais brevemente possível das coisas (a velocidade do nosso tempo não nos permite criar vínculos que nos amarrem). O copo plástico e a lata de alumínio são ícones do transitório. Mas, esta tal descartabilidade está presente também em bens mais duráveis: computadores e carros são bons exemplos. Pergunto: se tudo está para ser descartado, o que fazer do amor, dos laços humanos e no caso deste estudo: o que fazer quando o produto turístico deve ser descartado? Já refletimos do que é feito tal produto? Além de toda a estrutura que é alardeada (transportes, atrativos, meios de hospedagem e alimentação), o turismo é permeado de vida, de gente, de cultura de lugar, de plantas e animais. Como descartar tal produto?
Apenas mais algumas características que podem servir para reflexões particulares e futuras: nossa sociedade é insaciável. Sim, a cultura da insaciabilidade é marca do d.n.a. do “hoje”. Saciar o insaciável é impossível, pois sua vontade de consumo é perpétua e se (auto)regenera. Sabem por quê? Porque o consumo traz em si o gérmen da insatisfação. Não é o bem consumido que o consumidor deseja: o consumidor deseja apenas o consumo.
Isso nos traz ao cerne do problema: a cultura de consumo.
Dizer que vivemos numa cultura de consumo é dizer que o centro estruturador de nossa sociedade é o mercado e o consumo. Esta condição é essencial para que possamos compreender o “hoje”. A cultura de consumo propõe-se ao impossível. Saciar a insaciabilidade. E é nesse mecanismo que ela se (auto)perpetua. Consumir não é mais um meio, mas um fim em si. Há um sem fim de possibilidades de análise das questões da cultura de consumo em nosso tempo: vamos nos ater ao turismo.
Re-lembrando. E agora, acho que de maneira mais clara, as perguntas feitas ao início deste texto. Que repito: nada tinham de inocentes.

O que é o turismo? É o sonho das pessoas? São os desejos de se conhecer lugares, pessoas, culturas diferentes? É o desejo de trocar conhecimentos? É a vontade de conhecer o novo? De vivenciar emoções fora do cotidiano? De renovar as energias gastas num ano estressante? De aliviar a cabeça martelada por um dia-a-dia nem sempre enriquecedor devido à rotina imposta? É uma possibilidade de destaque no grupo ao qual pertenço?

Estas perguntas fazem mais sentido agora? Está mais claro, aonde eu queria chegar com elas?
Considero o turismo como a mercantilização do sonho das pessoas. O sistema capitalista tão bem estruturado que é, vai buscar (ou pior: vai formar) na subjetividade das pessoas seus desejos. Aqueles que a pessoa não tem: ele cria. Os estudos hegemônicos de turismo chamam isso de Segmentação de Mercado, de Prospecção.
O desejo de conhecer o novo é próprio do ser humano. O desejo de trocar, conhecer e vivenciar algo diferente. Muito embora, o novo e o diferente assustem. No turismo, por conta do planejamento como é feito nos tempos atuais esse novo torna-se um pseudo-novo. O planejamento dos lugares turísticos já garante sua equivalência, já disse Debord. E desta maneira, completando esse pensamento com outro pensador, o francês Felix Guattari, o turismo acabou tornando-se uma viagem sem sair do lugar no seio das mesmas redundâncias de imagens e comportamentos.
O desejo do turismo no “hoje” acaba surgindo como compensação à insuportável convivência com sua outra face da moeda, o cotidiano. A rotina diária vivida incessantemente exige compensação. Tal compensação pode se dar de muitas maneiras: uma delas é o turismo. Religião, futebol, cachaça, exercícios físicos à exaustão, a busca do corpo perfeito são outros exemplos comuns.
Então para se pensar o turismo, precisamos pensar o hoje. Para (re)pensar o turismo, precisamos (re)pensar o cotidiano.
A cultura de consumo tem por premissa a criação de novas e novas mercadorias. Neste processo, pensando no turismo, ela ‘empacota’ – para usar uma metáfora conhecida dos participantes do trade – tudo aquilo que pode para vender no mercado. O pacote turístico torna-se ícone, pois nele estão: os lugares visitados, sua natureza e as pessoas e sua cultura e subjetividade. Já pararam para pensar nisso? O turismo não empacota apenas o meio de transporte ou alimentação, o atrativo ou o meio de hospedagem como já dissemos... ele empacota os sonhos das pessoa que lá moram e que acabam tornando-se parte do produto vendido: isso transforma profundamente a vida das pessoa que viram mercadoria. A educação instrumentadora do turismo acha isso normal e procura produzir meios para que isso aconteça.
Como disse ao início deste texto: seu objetivo é gerar dúvidas e tirar vocês de suas zonas de conforto. Não desistam do turismo: reformem-no. Percebem o que estou dizendo: reformar o pensamento em produção do turismo talvez seja possível. Mas, é tarefa difícil. Sabem por quê? Por que exigirá estudo e dedicação profundas. Não apenas um movimento veloz, fragmentado e superficial de qualificação para o mercado de trabalho. Exige trabalho e dedicação de uma vida toda. Vocês estão dispostos? Estão dispostos a produzir conhecimento e ação profundas que rompam com as demandas superficiais do pensar no “hoje”? O técnico em turismo é apenas um primeiro passo. Vocês estão realmente dispostos? Pode ser o projeto de uma vida...
O futuro? Bom, o futuro depende daquilo que fazemos hoje. E hoje, o estudante de turismo (seja ele do técnico, da graduação ou da pós) pode começar a produzir reflexões sobre a prática do turismo, considerando a condição daquilo que chamamos aqui de ‘hoje’ para aproveitar o título deste texto. Considerar o turismo como consumo e toda a implicação que isso lhe traz, pode produzir um tipo de conhecimento diferenciado deste conhecimento viciado que está sendo produzido hoje em dia. Um conhecimento que reflita sobre o fenômeno do mercado e que não se limite a produzir pseudo-reflexões a partir do mercado. Este é reducionista, veloz, superficial, fragmentado, descartável e insaciável. Afastará de si qualquer hipótese de renovação. Mas, ao mesmo tempo maquiará suas práticas com pseudo-discursos muito parecidos com as propostas que aqui estamos procurando desenvolver. É preciso muita atenção para não cair nas armadilhas.
Como prometi, quanto ao trabalho dos guias de turismo, eu acredito que esses profissionais podem ter um trabalho extremamente diferenciado daquele que lhes é atribuído hoje em dia. O guia de turismo é o profissional que conhece o lugar que o turismo normalmente desconhece. Se o guia conhece e mostra, ele impede que o turista conheça. Então, brincando com as palavras, mas, sem brincadeira: o guia de turismo deveria des-conhecer o lugar para que o visitante possa criar suas próprias impressões. Isso tira a responsabilidade do guia de ser aquela matraca ambulante a tagarelar informações históricas, dados, índices, proezas etc. O guia deve estimular o visitante a procurar formar suas próprias impressões. Isso faz do profissional, um agente de aproximação e não de separação como vem sendo feito hoje. Os guias em muitas situações acabam por desfilar seus próprios egos. Uma atitude diferencia é necessária se se pretende que o visitante possa conhecer alguma coisa do lugar.
Pensando na pessoa do guia de turismo profissional: a profissão é uma potencialidade inesgotável de aprendizado. O guia é um educador e um educador não consegue educar se não se educar e não se educa senão no contato com os outros: a abertura ao outro, problema crônico de nosso tempo, é o diferencial do ser humano que trabalha como educador, como guia de turismo.
Para finalizar. É preciso praticar a lucidez num constante exercício de perguntas sobre o que nos é dado: só assim teremos chance de ler o mundo e conseguir escrever nossas próprias linhas no texto da vida e não deixar que os outros as escrevam.

Prof. Helio Hintze
helio.chintze@sp.senac.br

2 comentários:

Sabriny disse...

rsrs...profundo seus argumentos...vou mandar pro e-mail da minha turma!

Helio Hintze Blog disse...

Ola ...
fique a disposição:
a dissertação está no banco da USP:

http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/91/91131/tde-14102008-145041/

qual é o tema do seu trabalho.

H